Lá, onde o Sol começa e os mares se beijam, uma galinha branca pintalgada de negro teve uma ninhada de filhotes, lindos de morrer.
Por tudo quanto era sítio ela entrava, sempre que ouvia uma voz que soava perto mas vinha de lá, do outro lado onde o Sol parece acabar só num mar.
Aquela galinha de pintinhas negras cacarejava e corria, mesmo que aquela voz de quem ela tanto gostava chamasse outros que não ela. O que lhe interessava era o som, era saber que aquela voz estava ali…, bem pertinho dela e dos seus filhotes.
E foi assim possível que as criaturas diferentes embora com o mesmo Criador estabelecessem uma relação de amizade e de entendimento como se diferença não existisse entre elas.
Muitas vezes aquela voz desejou ter coração de galinha pintalgada de pintinha pretas, apesar da expressão “ter coração de galinha” significar, em sentido figurado, ter coração pequenino, chorar por tudo e por nada, porque o coração pequenino não aguenta grandes emoções,
Mas essa voz não se interessava, porque teve a experiência de que a sua amiga galinha com pintinhas negras testemunhou ter um coração do tamanho do mar, com um amor mais quente do que o sol, onde cabiam os seus 11 filhotes.
Nesses 11 havia um que um dia decidiu bater asa. Voou, voou e encontrou a dona da voz do outro lado onde os mares não se beijam.
A dona da voz, armada em mãe-galinha branca de pintinhas negras, abriu as asas e quis cobri-lo e resguardá-lo de tudo quanto pudesse ser pó, poeiras e tsunamis. Queria ouvi-lo “cantar de galo” para ter a certeza de que estaria seguro e livre de qualquer perigo, só que, o filhote da galinha das pintinhas pretas ao ouvir o som daquela voz emudecia, emudecia, emudecia…
Mas porque será? Perguntava-se a si mesma, preocupada, a dona da voz, gritando gritos de amor em tom forte que mais parecia não o ser.
O que se passará? Pensava o filhote da galinha das pintinhas pretas.
Será que esta dona daquela voz gastou todo o seu “coração de galinha”? Deixa-me cá apalpar o pulso porque mais parece é não ter coração!
Era a tarde de um daqueles dias vividos com o coração.
Aos ouvidos da dona daquela voz chegaram ecos de melodias contidas numa pena (pene). Lá dentro, Jesus caminhava sobre as ondas daquele trio de mares, que se espraiavam nas areias de uma só praia, num beijo eterno salgado de espuma.
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